IBGE Esclarece
IBGE esclarece matéria da Folha de S.Paulo sobre os 90 anos
29/05/2026 09h19 | Atualizado em 29/05/2026 09h48
Em referência à matéria publicada ontem (28/5/2026), pela Folha de S.Paulo, uma hora antes de o IBGE completar 90 anos no dia 29/5/2026, registramos:
O veículo encaminhou perguntas no dia 22 de maio de 2026 (sexta-feira), às 19h13, estabelecendo como prazo para devolução das respostas o fim do dia 25 de maio de 2026 (segunda-feira), o que foi devidamente cumprido pelo IBGE.
Destaca-se que, ao encaminhar a resposta, o IBGE solicitou que o veículo publicasse integralmente seu conteúdo, o que não ocorreu.
Dessa forma, em nome da transparência e da importância do esclarecimento à sociedade, bem como aos usuários e produtores de dados, publicamos as perguntas enviadas pelo veículo e as respectivas respostas do IBGE. Seguem:
1. Em linhas gerais, como o IBGE chega aos 90 anos? Qual é a avaliação da presidência sobre o cenário atual do instituto? É um cenário satisfatório ou não? Por quê?
Após o ataque às instituições públicas decorrente do golpe contra o legítimo mandato da presidenta Dilma Rousseff, o IBGE chega aos 90 anos como uma das instituições públicas mais estratégicas da República brasileira. Poucos órgãos no país possuem a mesma capilaridade territorial, autoridade técnica e relevância institucional para o Estado, a sociedade, a ciência, os estados, os municípios, as empresas e a democracia. Enquanto parte do mundo mergulha na desinformação, o Instituto segue como referência fundamental na produção de dados oficiais sobre o Brasil real. No século XXI, não há soberania nacional sem estatística pública forte, geografia crítica, inteligência territorial e capacidade de interpretar, em tempo real, as transformações demográficas, econômicas, ambientais e tecnológicas do país. Em um mundo no qual os dados se tornaram poder geopolítico, o IBGE tornou-se tão decisivo quanto bancos centrais, forças armadas ou sistemas de energia. Sem estatística pública soberana, o país fica refém de plataformas privadas, algoritmos estrangeiros e narrativas fabricadas pelo mercado. O IBGE resistiu ao desmonte do Estado, ao estrangulamento orçamentário, à precarização do trabalho, ao negacionismo científico e às tentativas de reduzir a estatística e a geociência públicas a mera burocracia administrativa. Resistiu porque carrega algo raro: a credibilidade técnica histórica, mesmo após quase dez anos sem concurso público, com perda do poder de compra das remunerações, retirada de cargos de confiança, alta rotatividade nas chefias, abandono da participação internacional e outras formas de esvaziamento institucional. Mas resistir, embora fundamental, não se mostra suficiente. Desde o segundo semestre de 2023, o cenário do IBGE passou a ser o da reconstrução, com a modernização urgente e necessária em meio a uma profunda transformação digital. Para isso, o Instituto passou a recompor seus quadros, recuperar o poder de compra das remunerações, valorizar servidores, modernizar sua infraestrutura tecnológica e proteger o sigilo estatístico e geocientífico. Também vem atualizando metodologias e processos de pesquisa, ampliando a integração das bases de dados para responder às exigências da nova sociedade de serviços hiperconectada, que demanda informação pública cada vez mais ágil, transparente e qualificada. O IBGE deixou de olhar apenas pelo retrovisor do país e passou a construir capacidade de inteligência estratégica sobre o futuro brasileiro. O desafio é transformar o Instituto na principal infraestrutura nacional de inteligência territorial, estatística, geocientífica, de dados e de inteligência preditiva do Estado brasileiro. Esse processo tem sido enfrentado de forma democrática, transparente e participativa, interna e externamente, em sintonia com os interesses do conjunto da sociedade brasileira. O século XXI não será comandado apenas por quem produz riqueza nos padrões da Era Industrial, mas por quem gera informação e interpreta a realidade antes dos demais. A informação tornou-se o ativo basilar de todos os setores socioeconômicos contemporâneos. Mais do que nunca, o Brasil não pode depender de big techs estrangeiras para compreender a si mesmo e comandar o seu próprio futuro. O IBGE caminha para se consolidar como uma grande infraestrutura pública de estatística, geociência e dados públicos.
2. O sindicato dos trabalhadores do IBGE, a Assibge, e parte do corpo técnico questionaram desde 2024 medidas adotadas pela direção do instituto, inclusive com críticas em manifestações públicas. Como a presidência do IBGE define a relação atual com os servidores?
A relação entre direção e servidores deve ser compreendida dentro da própria natureza do IBGE e do regime democrático. Por ser uma instituição pública nacional, com autonomia técnica e corpo funcional estável e altamente qualificado, divergências, quando existem, são legítimas. Elas devem ser compreendidas como parte do exercício da pluralidade, da participação e da transparência, elementos próprios de um processo democrático de construção de convergência progressiva e de nova coesão institucional. Isso é ainda mais importante em um momento de transformação digital e de construção do Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas e Dados (SINGED). Cabe registrar que a atual gestão chegou ao IBGE e realizou seu primeiro evento dentro da sede do sindicato. Como primeira conquista, obteve a inclusão do Instituto na mesa de negociação especial destinada a dez órgãos federais. Na ocasião, lançou o projeto “Diálogos IBGE 90 Anos”, voltado a promover o debate interno de forma estratégica, transparente e participativa. Esse debate jamais deve ser visto como fragilidade, mas como expressão do compromisso de todos com o presente e o futuro do Instituto. Desde 2023, o IBGE vem percorrendo um caminho inédito de diálogos frequentes e sistemáticos, com encontros nacionais de servidores, conferências nacionais e internacionais e reuniões virtuais que envolveram mais de 10 mil servidores. Também foram realizados três grandes eventos presenciais, responsáveis pela consolidação das 12 diretrizes institucionais e pela preparação do primeiro plano de trabalho da história recente do IBGE. Trata-se de um conjunto de iniciativas sem paralelo na trajetória dos 155 anos do Sistema Estatístico Oficial, resultante de um amplo processo de escuta e planejamento estratégico para o período até 2032. O respeito à diversidade e à pluralidade, interna e externa, não significa ausência de conflito. Significa corresponsabilidade diante da compreensão compartilhada de que o IBGE precisa mudar. O debate interno expressa justamente o alto nível de consciência técnica e compromisso institucional dos mais de 11 mil servidores, distribuídos em 27 Superintendências e mais de 560 agências em um país de dimensão continental. Essa é uma virtude, não um defeito. Uma instituição que pensa profundamente o Brasil não poderia produzir unanimidade burocrática, especialmente quando atravessa uma revolução tecnológica. A inteligência artificial, a digitalização massiva dos dados, os novos sistemas de coleta e a necessidade de reposicionar o Instituto globalmente exigem mudanças estruturais significativas, planejadas e consistentes. O maior erro seria imaginar que o IBGE poderia continuar operando com a lógica do século XX em um mundo reorganizado por plataformas digitais e guerras de informação. Modernizar não significa romper com os servidores. Pelo contrário, a participação dos trabalhadores tem sido parte essencial da reconstrução histórica do Instituto, por meio de instrumentos democráticos como o Plano de Trabalho Integrado e Orçamentário, definido anualmente, e o Plano Geral de Informações Estatísticas e Geográficas, de longo prazo, que supera mais de meio século de gestões ancoradas — quase que exclusivamente — em emergências. A verdadeira disputa não está entre direção e servidores, mas entre transformar o IBGE em protagonista do futuro ou condená-lo à irrelevância diante do avanço do capitalismo de dados. Infelizmente, a direção sindical rompeu com a atual gestão em 2024, após a publicação de portarias que regulamentaram o regime de trabalho e estabeleceram a presença dos últimos segmentos de servidores que ainda estavam — após quatro anos — em regime 100% remoto em uma escala de apenas dois dias presenciais por semana. A medida foi necessária para preparar a instituição para a chegada de novos servidores, oriundos do maior concurso público da história do IBGE. Registre-se que, até a implementação das portarias, 90% dos trabalhadores efetivos, terceirizados e temporários já atuavam em regime presencial ou híbrido. Outro fator de oposição da direção sindical foi o planejamento estratégico da gestão para transferir unidades instaladas em prédios privados para espaços públicos. No Rio de Janeiro, por exemplo, parte de um prédio privado alugado na Avenida Chile permaneceu por mais de quatro anos sem ocupação, em razão do regime remoto, gerando um custo acumulado de R$ 85 milhões apenas em aluguel. A transferência dos servidores para um prédio público representou a economia anual superior a R$ 15 milhões. Infelizmente, essa medida também encontrou resistência da direção sindical e de parte dos servidores. A economia obtida com a redução dos aluguéis tem sido direcionada à recuperação de prédios públicos da própria instituição, buscando melhorar as condições gerais de trabalho. Nenhum projeto de reconstrução e modernização pode ser sustentável sem a participação ativa dos trabalhadores. A crítica interna, quando feita em defesa do IBGE, é incorporada como sinal de vitalidade institucional. Ela permite transformar tensão em construção democrática, divergência em aperfeiçoamento da coesão e conflito em compromisso competente com o futuro da instituição.
3. O IBGE ainda não divulgou os microdados do Censo Demográfico 2022. Há alguma previsão de quando isso vai acontecer? O que explica o fato de os microdados ainda não estarem disponíveis? Trata-se apenas do risco de quebra de sigilo impulsionado pela inteligência artificial?
Os microdados do Censo Demográfico representam uma das etapas mais complexas e sensíveis da disseminação estatística e geocientífica nacional. A divulgação dos microdados do Censo Demográfico 2022 é prioridade institucional, pois eles são fundamentais para a pesquisa acadêmica, os estudos técnicos, as políticas públicas, o planejamento e as decisões de toda a sociedade brasileira. A liberação de microdados censitários exige máxima responsabilidade. Não se trata apenas de publicar uma base de dados, mas de garantir que a sociedade tenha acesso à informação pública sem colocar em risco o sigilo estatístico dos informantes. Esse equilíbrio é parte essencial da credibilidade histórica do IBGE. O risco associado ao avanço da inteligência artificial é, sim, um elemento novo e relevante. Técnicas modernas de cruzamento de bases, reidentificação, inferência probabilística e processamento automatizado ampliaram o risco de quebra de sigilo mesmo em bases anonimizadas. Essa questão não é exclusiva do Brasil, pois se tornou central para institutos estatísticos em todo o mundo. O problema não é apenas técnico, também civilizatório. O IBGE não pode agir como uma empresa privada de rede social que coleta dados sem responsabilidade pública. Além da inteligência artificial, há fatores metodológicos, jurídicos, tecnológicos e operacionais envolvidos. A produção de microdados censitários exige crítica, imputação, documentação, definição de áreas de ponderação, testes de consistência, avaliação de risco de disclosure, compatibilização com padrões internacionais e construção de mecanismos seguros de acesso. Os microdados serão divulgados quando estiverem tecnicamente consistentes e devidamente protegidos do ponto de vista do sigilo estatístico, acompanhados de novos protocolos de confidencialidade compatíveis com a era da inteligência artificial. O desafio contemporâneo das estatísticas públicas não é apenas divulgar dados, mas fazê-lo preservando a confiança social e a integridade institucional. O IBGE não pode ceder nem ao atraso injustificado nem à pressa irresponsável. Transparência é obrigação; proteção do informante também. O compromisso da divulgação deve atender simultaneamente aos critérios de segurança, explicação pública, transparência e proteção absoluta do sigilo das informações individuais, princípio histórico e legal do Instituto. Sempre que necessário, poderão ser oferecidas alternativas de acesso controlado para pesquisadores e instituições públicas. A tendência internacional é clara. Pela primeira vez na história, os institutos nacionais de estatística enfrentam tecnologias capazes de cruzar bilhões de informações em segundos e tentar reidentificar indivíduos mesmo em bases anonimizadas. A inteligência artificial mudou radicalmente a fronteira do sigilo estatístico. Por isso, os institutos nacionais de estatística estão revendo e reinventando seus modelos de disseminação de dados. O IBGE está no centro dessa transição histórica, tratando informações estratégicas como ativo nacional, e não como mercadoria vulnerável à exploração tecnológica externa. Em seus 90 anos, o Instituto nunca registrou vazamento de dados, um dos pilares da confiança dos usuários e produtores de informações.
4. Outra pesquisa importante do IBGE, a POF 2024/2025, foi a campo. Quando começará a divulgação dos resultados da POF?
A Pesquisa de Orçamentos Familiares 2024/2025 é um dos trabalhos mais estratégicos do IBGE para o Brasil. Ela atualiza a compreensão sobre consumo, renda, despesas das famílias, segurança alimentar, qualidade de vida, estrutura dos índices de preços, contas nacionais, desigualdades sociais e, de forma inédita, o uso do tempo pelos brasileiros. Ao mesmo tempo, a POF pretende revelar um Brasil em profunda transformação, como nos padrões familiares, na financeirização das decisões de gasto e renda, nas novas formas de consumo digital, na expansão dos serviços por aplicativos, na inflação alimentar, nos efeitos das mudanças climáticas sobre o custo de vida, no endividamento, nos jogos, entre tantas outras aceleradas no mundo do trabalho. Trata-se de um grande raio-X do Brasil pós-pandemia, pós-uberização e pós-explosão digital. Mais do que tabelas estatísticas e mapas geocientíficos, a POF revela a própria anatomia socioeconômica e geográfica da transformação histórica em curso na nova sociedade de serviços hiperconectada da Era Digital. Assim como a realização do 12º Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola prepara a inédita implementação anual da Pesquisa Nacional por Amostra de Estabelecimentos Agropecuários (PNAGRO), a divulgação da POF 2024/2025 trará outra novidade ao país, com a implementação da POF Contínua. Trata-se de uma mudança de patamar do Estado brasileiro. O IBGE não pode medir a vida das famílias apenas após longos intervalos de tempo, como se o custo de vida fosse imóvel. A renda muda, os preços mudam, o consumo muda, a alimentação muda, o endividamento muda, o trabalho muda e outras dimensões da vida dos brasileiros também se transformam rapidamente. Com a inédita POF Contínua, será possível acompanhar o Brasil real em tempo muito mais próximo da vida concreta da população. A POF Contínua fortalecerá os índices de inflação, as contas nacionais, as políticas públicas e o planejamento nacional. Mais do que uma nova pesquisa, ela representa um marco na reconstrução e modernização de uma instituição comprometida com a democracia, a justiça social e a soberania estatística e geocientífica da nação. A divulgação da POF 2024/2025 terá início em novembro deste ano. Cabe destacar que a POF é uma das pesquisas resgatadas por esta gestão, assim como o Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola, ambos com últimas edições realizadas em 2017. Somam-se a elas, a recuperação da Pesquisa sobre a Economia Informal Urbana (ECINF), entre outras, bem como o ineditismo de iniciativas do IBGE como a Pesquisa Especial sobre as Enchentes no Rio Grande do Sul (PEERS), o Censo da População em Situação de Rua (PopRua) e o Censo dos Brasileiros no Exterior (CeBrE) Tudo isso integra o planejamento do IBGE e expressa o reconhecimento internacional do Instituto como protagonista em fóruns técnicos e científicos, sobretudo no âmbito do Sul Global. A eleição do IBGE pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas o reintroduziu na elite do sistema estatístico e geográfico mundial, contando com a presença crescente de servidores ibgeanos em comissões técnicas, seminários, conferências e ações de cooperação técnico-científica internacional.
Confira a programação completa dos eventos, ações e atividades dos 90 anos do IBGE no portal comemorativo: IBGE 90 anos