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90 anos

A construção de um Brasil contado em números

Editoria: IBGE | Leandro Malavota e Mario Grabois

28/05/2026 22h00 | Atualizado em 28/05/2026 22h00

Quadro produzido pela Diretoria Geral de Estatística, representando as áreas dos estados, [s.d.]. - Foto: Acervo IBGE

No Brasil, iniciativas voltadas à organização dos serviços estatísticos foram tomadas desde os tempos do Império: a primeira instituição estatística oficial foi criada em 14 de janeiro de 1871, com o nome de Diretoria Geral de Estatística − DGE. O órgão foi incumbido da realização de recenseamentos da população (o primeiro ocorrido em 1872), elaboração de mapas de registros civis, organização de dados produzidos por outras repartições, bem como da formulação de planos estatísticos para as províncias.

Extinto em 1881, em razão de cortes orçamentários, foi restabelecido em 1890, já sob o regime republicano. Embora a DGE, uma instância federal, tenha funcionado continuamente durante toda a Primeira República, as atividades estatísticas no período caracterizaram-se por uma estrutura descentralizada, contando cada estado com repartições e serviços próprios, baseados em práticas, metodologias e objetivos diversificados.

A partir do primeiro governo do presidente Getúlio Vargas, os esforços em prol de uma reorganização dos serviços estatísticos no país tornaram-se evidentes. Foram criados departamentos estatísticos em cinco ministérios, com a finalidade de promover a reunião e organização de informações produzidas por instâncias federais, estaduais e municipais. Após esse rearranjo inicial, as ações convergiram em direção a um arcabouço institucional de novo tipo, baseado na cooperação entre as unidades federativas e o governo federal.

O modelo teve como grande idealizador Mário Augusto Teixeira de Freitas, o principal expoente entre os fundadores do IBGE. De pronto bem-sucedida, a experiência encorajou o governo a apostar na solução interadminstrativa como referência para a consecução de um Sistema Estatístico Nacional − SEN.

Mário Augusto Texeira de Freitas, [s.d]. - Foto: Autor desconhecido. Acervo IBGE

Em 6 de julho de 1934 foi criado o Instituto Nacional de Estatística − INE, órgão federal incumbido de promover a articulação, racionalização e padronização dos serviços estatísticos no Brasil. Sua efetiva instalação, contudo, ocorreria cerca de dois anos depois, em 29 de maio de 1936, com a posse do primeiro presidente da instituição, José Carlos de Macedo Soares. Teixeira de Freitas, pessoa central nesse processo foi nomeado como seu Secretário-Geral. A autoridade legal e a organização administrativa do INE foram viabilizadas após a ratificação da Convenção Nacional de Estatística, em 11 de agosto de 1936, pela qual as unidades federativas aderiam voluntariamente a um sistema de informações estatísticas, aceitando a subordinação técnica de suas repartições a um órgão coordenador. A competência de promover a orientação e direção superiores das atividades do INE foi atribuída ao Conselho Nacional de Estatística − CNE, centro decisório do sistema que nascia.

O reordenamento do Estado brasileiro no período pós-30 também demandava o avanço do conhecimento sobre o território nacional, o que envolvia a sua mensuração, descrição e controle. Assim como os dados estatísticos, as informações geográficas, cartográficas e geodésicas também eram tomadas como matérias-primas aplicadas ao processo de tomada de decisões e de políticas públicas.

Logo, em 24 de março de 1937, foi criado o Conselho Brasileiro de Geografia − CBG, órgão autônomo integrado ao INE, entre cujas responsabilidades destacavam-se a coordenação dos estudos sobre a Geografia do Brasil e a promoção da articulação dos serviços geográficos oficiais e privados. No ano seguinte, a instância receberia nova denominação, passando a se chamar Conselho Nacional de Geografia − CNG. O mesmo ato legal transformaria o INE em Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística − IBGE, ratificando no próprio nome da autarquia a união entre ambos os campos.

É importante salientar a natureza sui generis que o IBGE assumiu no momento de sua criação. Primeiramente, pelo fato de se constituir em uma autarquia federal diretamente vinculada à Presidência da República, diferentemente das demais, inscritas às estruturas dos ministérios. E por não atuar propriamente como uma instituição produtora de informações estatísticas e territoriais, e sim, coordenadora de dois sistemas de informações que deveriam funcionar de forma integrada. Tratava-se, portanto, de uma espécie de associação de órgãos correlatos, uma instância colegiada responsável pela organização, orientação técnica e formulação das diretrizes de funcionamento para serviços descentralizados, tipificados como essenciais aos interesses nacionais.

Agência do IBGE no Ceará, [s.d]. - Foto: Autor desconhecido. Acervo IBGE

Construídas as suas bases nos anos 1930, a década seguinte marcou um período de expansão e consolidação do IBGE. Em 1940, o órgão realizou seu primeiro Censo (Recenseamento Geral do Brasil 1940) em uma conjuntura marcada pela eclosão da Segunda Guerra Mundial, na qual as informações estatísticas e territoriais mostravam-se estratégicas aos imperativos da Segurança Nacional. A operação é considerada um marco na história das estatísticas nacionais, inaugurando um novo modelo de trabalho, com padrões metodológicos modernos que criaram condições para uma investigação mais detalhada sobre a realidade social do país.

A partir de 1942, foram celebrados os Convênios Nacionais de Estatística Municipal, base para a criação das Agências Municipais de Estatística, repartições coletoras de informações. Em 1944, foram criadas as Inspetorias Regionais de Estatística Municipal, representações do IBGE em cada Unidade da Federação. Na mesma época, tiveram início as chamadas “expedições geográficas”, missões de pesquisa voltadas ao reconhecimento, descrição e estudo do território nacional. Outro destaque do período foi a estruturação do Sistema Geodésico Brasileiro − SGB, sob a liderança de Allyrio Hugueney de Mattos.

A partir de meados do século XX, o desenrolar do processo de industrialização e a progressiva diversificação da economia brasileira passaram a impor ao IBGE demandas cada vez mais volumosas por informações estatísticas, sobretudo as econômicas. Nesse contexto, ao longo dos anos 1950 e 1960, adensaram-se os debates sobre o IBGE e o SEN para atender a essas novas exigências. Naquele período, o IBGE participou de inúmeros debates e discussões visando sua inserção no grande processo nacional que procurava criar as bases para o desenvolvimento nacional, a partir do planejamento econômico e social. Contudo, as intervenções mais contundentes foram efetuadas ao fim dos anos 1960, sob impulso de uma reforma mais ampla da Administração Pública federal.

Em 13 de fevereiro de 1967, o IBGE foi transformado em uma fundação de direito público, com personalidade jurídica própria e independência administrativa e financeira. A Fundação IBGE nasceu composta por três órgãos autônomos: Instituto Brasileiro de Estatística – IBE; Instituto Brasileiro de Geografia – IBG; e Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE. Posteriormente, em 1971, seria ainda criado um quarto órgão, o Instituto Brasileiro de Informática – IBI, responsável pelo processamento dos dados necessários às atividades da instituição e pela automação do acesso a informações.

Nos anos 1970, essa reforma estrutural foi ainda mais aprofundada, conferindo-se novo significado e funcionalidade à atuação do IBGE. Se, desde a sua criação, o órgão atuara como instância coordenadora de um sistema de informações, sob o novo modelo, era transformado em agência produtora dessas mesmas informações.

Além da produção de estatísticas primárias ― informações obtidas a partir do tratamento de respostas aos inquéritos feitos junto a pessoas ou organizações ―, a Fundação foi estruturada para a elaboração de estatísticas derivadas, isto é, aquelas geradas por agregação ou cruzamento de variáveis das estatísticas primárias e outras fontes de informação (indicadores e sistemas de referência).

Dentre os trabalhos desenvolvidos nessa nova fase institucional, destacaram-se o Censo Demográfico 1970, a realização de pesquisas domiciliares por amostragem, a construção de um Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor, a criação de indicadores sociais, a elaboração de uma matriz insumo-produto (que sistematizou dados relativos aos principais fluxos reais verificados na economia nacional), além do lançamento de novos inquéritos sobre saneamento básico, extrativismo vegetal, agropecuária, indústria, comércio e serviços.

No campo das Geociências, a chamada “geografia quantitativa” ratificou a união entre os estudos geográficos e de planejamento. Também relevante foi a formação de uma área voltada a investigações sobre recursos naturais e meio ambiente, assim como a criação, em 1975, da Reserva Ecológica do Roncador — três anos depois renomeada Reserva Ecológica do IBGE —, concebida como uma unidade de conservação e pesquisa científica sobre o Bioma Cerrado. 

Com a restauração democrática, em 1985, o IBGE passou por novo processo de mudança. No início da Nova República, a fundação foi chamada a rediscutir seus princípios, funções e propósitos. Buscou-se implementar medidas voltadas à desburocratização de atividades, descentralização de decisões, modernização de processos e promoção de práticas de transparência. Emerge nesse momento um novo paradigma institucional, pautado na reconstrução das relações entre o órgão e a sociedade brasileira. A nova diretriz que, em boa medida, recuperava o espírito dos fundadores do IBGE que conferiam papel fundamental à disseminação e divulgação, estimulava a abertura de acervos e bancos de dados, permitindo aos cidadãos acesso mais amplo e ágil à informação produzida pelo Instituto. A missão do IBGE não se esgota na produção de informações estatísticas e territoriais, mas só se completa na medida em que elas chegam aos usuários e por eles são absorvidas, transformando-se em conhecimento sobre a realidade brasileira. Assim, a disseminação foi ratificada como atividade finalística do IBGE, sendo então criado o Centro de Documentação e Disseminação de Informações − CDDI.

Espaço de Memória e Tecnologia inaugurado na semana das comemorações dos 90 anos - Foto: Thiago Antunes

Nas últimas três décadas, os esforços institucionais têm se concentrado no atendimento das cada vez mais complexas demandas da sociedade brasileira por informações, sempre zelando por garantir a sua qualidade e credibilidade. Uma marca da atuação recente do órgão é a busca pela modernização de suas práticas de trabalho, lançando mão de novos recursos tecnológicos. A primeira versão do portal do IBGE na web foi lançada já em 1995, tornando a instituição uma das primeiras do país a adentrar no universo digital. De lá para cá, essas iniciativas têm sido intensificadas, por meio do desenvolvimento de novos bancos de dados e ferramentas de busca e acesso para os usuários, o uso de sistemas de georreferenciamento, a digitalização de acervos bibliográficos e documentais, a produção de conteúdos digitais diversos, além da inserção da instituição nas redes sociais. Em 2017, foi criada a Agência IBGE Notícias e o Instituto passou a produzir conteúdo jornalístico. Aos noventa anos, o IBGE segue firme em sua busca constante por excelência. 

Mapa Interativo na Casa Brasil IBGE, no Rio de Janeiro - Foto: Thiago Antunes