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Cem anos de Milton Santos: por que seu pensamento segue essencial para entender o Brasil

Editoria: IBGE | Marcos Filipe Sousa

04/05/2026 09h00 | Atualizado em 06/05/2026 17h16

Reconhecido como um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX, Milton Santos construiu uma obra marcada pelo rigor científico, pelo compromisso social e por uma leitura crítica das desigualdades produzidas pelo sistema capitalista. Nascido em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, ele transformou a geografia em uma poderosa ferramenta de interpretação do mundo contemporâneo, especialmente a partir da realidade dos países periféricos.

Formado em Direito pela Universidade Federal da Bahia, em 1948, Milton Santos encontrou na geografia o campo intelectual onde desenvolveria suas principais reflexões. Doutorou‑se em Geografia em 1958, na Universidade de Estrasburgo, na França, com uma tese dedicada ao centro da cidade de Salvador — trabalho que já revelava seu interesse pela dinâmica urbana e pelas contradições do espaço nas cidades brasileiras.

O jovem Milton Santos. Foto: Acervo Pessoal

Antes do golpe militar de 1964, Santos conciliou a carreira acadêmica com intensa atuação pública. Foi jornalista do jornal A Tarde, professor universitário, diretor da Imprensa Oficial da Bahia e ocupou cargos relevantes no planejamento econômico do estado. Suas pesquisas desse período estavam profundamente ligadas à realidade local, buscando compreender as relações entre território, economia e sociedade.

A ruptura democrática de 1964 marcou um ponto de inflexão em sua trajetória. Perseguido pelo regime militar, Milton Santos foi forçado ao exílio, iniciando uma longa carreira internacional. Durante mais de uma década, lecionou e pesquisou em universidades da França, Estados Unidos, Canadá, Venezuela, Tanzânia e outros países. Esse período de intenso deslocamento intelectual ampliou seu olhar sobre o mundo e consolidou sua produção teórica, especialmente sobre a urbanização nos países então chamados subdesenvolvidos.

Foi no exílio que publicou obras fundamentais, como Les Villes du Tiers Monde e L’Espace Partagé, nas quais apresentou a teoria dos dois circuitos da economia urbana — o circuito superior e o circuito inferior — conceito que se tornaria central para os estudos urbanos críticos. A partir dessas análises, Milton Santos passou a defender uma geografia comprometida com a compreensão das desigualdades estruturais e com a transformação social.

Em 1977, com o enfraquecimento da ditadura, retornou ao Brasil. Após dificuldades para se reinserir na universidade, passou pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e, em 1983, ingressou na Universidade de São Paulo, onde se tornaria professor titular de Geografia Humana. Mesmo após a aposentadoria compulsória, recebeu o título de Professor Emérito e seguiu produzindo, orientando e publicando até o fim da vida.

Nos anos finais de sua produção intelectual, Milton Santos ampliou o debate para a globalização, questionando seus efeitos perversos e propondo alternativas éticas e solidárias. Em Por uma Outra Globalização, publicado em 2000, defendeu a possibilidade de um mundo mais humano, construído a partir dos territórios e das necessidades concretas das populações.

O reconhecimento internacional veio em 1994, quando recebeu o Prêmio Vautrin Lud, considerado o “Nobel da Geografia”, sendo o primeiro intelectual do hemisfério Sul a conquistar a distinção. Milton Santos faleceu em 24 de junho de 2001, em São Paulo, mas sua obra permanece referência incontornável para geógrafos, urbanistas e cientistas sociais em todo o mundo.

Aula inaugural na UNIOESTE em 1997. - Foto: Acervo Pessoal

Legado para Geografia Mundial

Marcio Pochmann, presidente do IBGE, relembrou o seu legado, não somente para o Brasil, mas para a Geografia Mundial. "Milton Santos foi um brasileiro de múltipla conexão com o país. Ele, além de um pesquisador, estudioso, ele foi um professor que marcou ao longo de sua carreira a formação de muitos geógrafos, mas também outros profissionais. Destaca-se também dele uma referência, não apenas no Brasil, mas também em termos internacionais, como um profissional, um mestre engajado em questões concretas do nosso país. Ele faz parte, sim, de uma geração muito conectada com a necessidade de conhecer o Brasil, mas também de transformar o Brasil”.

Para ele, Milton Santos é uma referência importante na própria construção de políticas públicas, a partir de uma crítica muito consistente sobre o processo de modernização e de urbanização pelo qual o Brasil passou.

Diretor-adjunto de Geociências do IBGE, Gustavo Cayres falou sobre a importância de Milton Santos para as geociências. “Celebrar o centenário de nascimento de Milton Santos é reconhecer e reforçar a relevância de um pensador cuja contribuição é central para a geografia, mas que a transcende, alcançando muitas outras formas de pensar a sociedade e o espaço.”

Segundo Cayres, sua obra provoca à reflexão, à crítica e à projeção. “Ela não apenas oferece ferramentas para compreender a complexidade da sociedade e do espaço, mas também inspira um olhar voltado para sonhos e transformações possíveis, em diálogo direto com a produção do IBGE, seja pela finalidade inscrita na missão do Instituto, seja pela relevância de Milton Santos como referência intelectual.”

“Milton Santos é fundamental para compreender a relação entre espaço e técnica no Brasil e a posição do Sul Global. Ao mesmo tempo, essas compreensões, associadas ao conhecimento da realidade, constituem bases para o exercício da cidadania, funcionando como instrumentos para enxergar essa realidade e produzir movimentos em direção aos anseios e às transformações da sociedade e do território. Esse é um papel central da geografia crítica, cuja constituição se relaciona tanto com Milton Santos quanto com a produção do IBGE”, completou.

Com emoção e saudade, a geógrafa aposentada do IBGE, Adma Hamam, relembra o primeiro contato com o professor Milton Santos, ainda no período em que ele retornava do exílio na Europa. À época, Adma estava na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e teve a oportunidade de conhecer de perto aquele que se tornaria uma das maiores referências da geografia brasileira. Segundo ela, Milton Santos chamava a atenção imediatamente pelo carisma como conferencista e palestrante, especialmente diante de grandes plateias. Em sala de aula, era um professor disciplinado e exigente, rigoroso quanto ao silêncio e pouco tolerante a interrupções. Fora do ambiente acadêmico formal, no entanto, revelava-se uma pessoa profundamente fraterna e afetuosa. “No contato pessoal, era extremamente carinhoso. É um professor que vou levar para sempre no meu coração”, afirma.

Milton Santos construiu um sólido arcabouço conceitual e teórico para a geografia. - Foto: Marcelo Escobar

Adma Hamam também recorda com nitidez as conversas que teve com Milton Santos, marcadas por reflexões filosóficas constantes. O professor demonstrava grande interesse pelo pensamento clássico, com referências frequentes a filósofos como Aristóteles e Platão, e fazia questão de aproximar suas próprias experiências de vida das vivências de seus alunos. Esse vínculo se refletia na relação de orientação acadêmica, que, segundo a geógrafa, foi uma verdadeira via de mão dupla. Sua dissertação de mestrado, dedicada ao crédito rural, às mudanças tecnológicas no Espírito Santo e no Paraná e à expansão da soja na região, dialogou diretamente com o momento em que Milton Santos começava a formular o conceito de meio técnico-científico-informacional.

De acordo com a ex-aluna, o professor se alimentava do conhecimento empírico trazido por ela, fruto de inúmeras viagens a trabalho pelo oeste do Paraná, enquanto, ao mesmo tempo, estruturava um referencial teórico que projetava o futuro do campo brasileiro. “Naquele conceito, ele já antecipava o que hoje conhecemos como agricultura de precisão. Era alguém que enxergava o futuro”, ressalta. Para ela, foi um processo de enriquecimento mútuo, no qual orientador e orientanda construíram juntos novas interpretações sobre o território e a dinâmica agrária do país.

Ao refletir sobre o legado de Milton Santos, a geógrafa destaca aquilo que, em sua avaliação, foi a grande missão intelectual do professor: a construção de um sólido arcabouço conceitual e teórico para a geografia. Ele costumava dizer que estudantes de economia eram apresentados a uma multiplicidade de teorias para interpretar a realidade econômica — e que o mesmo deveria acontecer com os geógrafos. Seu objetivo era formar profissionais com um filtro teórico aguçado, capazes de compreender criticamente o mundo. “Esse foi o legado que ficou”, afirma.

Hoje, Adma observa com admiração a forma como o pensamento miltoniano segue vivo e fértil, servindo de base para novas interpretações sobre o Brasil, inclusive no debate das desigualdades étnico-raciais. “As categorias teóricas construídas por ele continuam sendo referência. Esse é o grande legado do professor Milton Santos”, conclui.