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Seminário "Abril Indígena" debate conhecimento, direitos e políticas públicas em Belém (PA)

Editoria: IBGE | Vitor da Costa

27/04/2026 16h24 | Atualizado em 28/04/2026 08h21

Com a participação de membros da academia, representantes do setor público, integrantes dos movimentos indígenas e servidores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi realizado nesta segunda-feira (27) o seminário “Abril Indígena: Conhecimento, direitos e políticas públicas”.

O evento ocorreu no contexto da celebração do Dia dos Povos Indígenas, comemorado em 19 de abril, sendo organizado pelo IBGE, por meio da Superintendência Estadual no Pará, e pela Universidade Federal do Pará (UFPA), no âmbito do Programa Enraizando a Posse Plena, do Gabinete da Reitoria.

O evento representou uma oportunidade de debater o processo de recenseamento das populações indígenas ocorrido ao longo do Censo Demográfico 2022. Além disso, propiciou a construção de um espaço de diálogo e mediação do conhecimento, de leitura crítica da realidade, de planejamento territorial e de fortalecimento da autonomia e da afirmação dos povos indígenas.

Evento representou uma oportunidade de debater o processo de recenseamento das populações indígenas ocorrido ao longo do Censo Demográfico 2022. - Foto: Liliane Regina

Durante a abertura do seminário, o superintendente do IBGE no estado do Pará, Rony Helder Nogueira, destacou a parceria já existente entre o Instituto e a UFPA, por meio da Casa Brasil IBGE, inaugurada em 2025 e que funciona na universidade.

“É um espaço de disseminação de informações e uma forma de cumprirmos a nossa missão de retratar o Brasil”, disse Nogueira, que também destacou a importância que os movimentos indígenas terão durante a coleta de dados no âmbito do Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola, que irá a campo em 2027.

O pró-reitor de Assistência e Acessibilidade Estudantil da UFPA, Ronaldo Marcos de Lima Araújo, ressaltou que a universidade possui um corpo discente diverso, com cerca de três mil estudantes quilombolas e 700 indígenas. Durante o seminário, o professor reforçou a importância de se ter acesso aos dados sobre as populações indígenas para melhor compreender a nossa realidade enquanto país.

“A universidade está popular na sua composição, e isso traz muitos desafios. Nós ainda temos muitos professores, gestores, técnicos e alunos que não sabem lidar com essa diversidade. É importante educarmos a universidade. É necessário haver um diálogo entre esses diferentes saberes para que possa ocorrer essa integração”, ressaltou.

Nessa perspectiva, também estiveram presentes membros dos movimentos indígenas. A representante da Coordenação Regional da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), Richelly de Nazaré Lima da Costa, reafirmou a necessidade de se levantarem informações sobre as populações indígenas após séculos de silenciamento.

“É expressivo o quantitativo de pessoas autodeclaradas indígenas nos dois últimos censos. Isso se dá porque o Estado está indo até os indígenas, e eles estão se manifestando. Não só porque querem acesso, mas porque precisam se apresentar. Eles são protagonistas dessa estrutura social. Essas pessoas existem e precisam estar visíveis. Elas precisam falar, e nós temos que ouvir.”

O seminário foi realizado no auditório da Reitoria da UFPA e contou ainda com o apoio das organizações estudantis indígenas, destacando-se a Associação dos Povos Indígenas Estudantes da UFPA (APYEUFPA), assim como representações estudantis do Diretório Acadêmico Indígena (DAIN) da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e do Coletivo Acadêmico da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA).

O seminário foi realizado no auditório da Reitoria da UFPA. - Fotos: Liliane Regina
O seminário foi realizado no auditório da Reitoria da UFPA. - Fotos: Liliane Regina
O seminário foi realizado no auditório da Reitoria da UFPA. - Fotos: Liliane Regina
O seminário foi realizado no auditório da Reitoria da UFPA. - Fotos: Liliane Regina
O seminário foi realizado no auditório da Reitoria da UFPA. - Fotos: Liliane Regina
O seminário foi realizado no auditório da Reitoria da UFPA. - Fotos: Liliane Regina
O seminário foi realizado no auditório da Reitoria da UFPA. - Fotos: Liliane Regina

Aperfeiçoamentos nas coletas do IBGE

A primeira palestra do dia, intitulada “Inovações metodológicas no retrato dos povos indígenas no Censo Demográfico 2022 e potencialidades”, foi conduzida pela gerente de Povos e Comunidades Tradicionais e Grupos Populacionais Específicos da Diretoria de Pesquisas (DPE) do IBGE, Marta Antunes.

Antunes ressaltou os avanços na coleta de dados realizada pelo IBGE junto às populações indígenas ao longo dos anos e como os aperfeiçoamentos na metodologia utilizada permitiram uma coleta mais apurada sobre essas populações durante o último Censo Demográfico.

“Estar aqui com representantes do movimento indígena é muito gratificante, porque o movimento, desde a primeira etapa de consulta, assumiu um papel de parceiro nesse Censo. Se não tivéssemos contado com o movimento indígena, não teríamos chegado ao resultado que alcançamos”, disse Antunes.

A gerente ressaltou que o último Censo identificou um aumento de 88% da população indígena. Entre as melhorias implementadas pelo IBGE estiveram pequenas alterações no questionário, a fim de abarcar as especificidades dos povos retratados; a elaboração de um questionário específico para as lideranças indígenas; a realização de um treinamento diferenciado para os recenseadores que trabalharam com essas populações; além da elaboração de outras formas de comunicação para sensibilizar as populações indígenas sobre a importância da coleta de informações.

“O Censo precisa se adaptar à realidade e à territorialidade dos povos indígenas, e não forçar que os povos indígenas se adaptem à forma pela qual produzimos estatísticas oficiais. A participação de professores e estudantes indígenas foi importante, inclusive na parte de tradução dos nossos materiais de sensibilização para as diversas línguas. Assim, as comunidades puderam receber alguns dos nossos materiais em suas próprias línguas”, ressaltou Marta.

Além disso, Antunes relembrou que, durante muitas décadas, os povos indígenas não tinham a opção de se autodeclarar indígenas. Nesse sentido, mesmo nas primeiras coletas em que a autodeclaração era possível, os resultados ainda eram ínfimos, uma vez que essas populações não estavam acostumadas com esse tipo de declaração, bem como as metodologias utilizadas à época não propiciavam uma coleta de dados com maior qualidade.

O Censo Demográfico 2022 identificou 8.567 localidades indígenas no território brasileiro, com 391 etnias indígenas declaradas. No Censo Demográfico de 2010, esse número foi de 305.

“A nossa taxa de recusa dentro das terras indígenas e dos territórios quilombolas foi menos da metade da registrada no território nacional como um todo”, destacou Antunes sobre a última coleta realizada.

Durante o seminário, também foi realizada uma palestra sobre a utilização dos dados indígenas contidos no Censo Demográfico 2022, que podem ser obtidos no banco de dados do Sistema IBGE de Recuperação Automática (SIDRA).