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IBGE

Segundo dia do Workshop de Experiências de Censos de População em Situação de Rua é marcado pela troca de informações e vivências municipais

Editoria: IBGE | Vitor da Costa

15/04/2026 12h52 | Atualizado em 16/04/2026 10h45

O compartilhamento de conhecimentos sobre a realização de pesquisas junto à população de rua foi destaque no segundo dia do “Workshop de Experiências de Censos de População em Situação de Rua”, promovido pelo IBGE, nesta terça-feira (14).

O evento tem como objetivo estabelecer um panorama das experiências de realização desses censos pelo Brasil, envolvendo desde iniciativas locais, como as pesquisas conduzidas pelos municípios, até propostas estaduais e nacionais. Esse compartilhamento de experimentações será estratégico na estruturação metodológica do 1º Censo Nacional de População de Rua, em estágio de planejamento pelo IBGE.

O evento tem como objetivo estabelecer um panorama das experiências de realização desses censos pelo Brasil. - Foto: Hiago Martins

A iniciativa conta com a participação de gestores, das universidades, de movimentos sociais e de organismos internacionais. Nesta terça-feira (14), o presidente do IBGE, Marcio Pochmann, esteve presente no evento.

“O IBGE recebe a todos de braços abertos, pela experiência e trajetória que possuem, nesse esforço que está sendo construir um Censo que é inédito para o Brasil. O que estamos fazendo aqui não é apenas uma resposta a um fenômeno brasileiro. O resultado de toda a tarefa que faremos, especialmente a partir da coleta do ano que vem, servirá de exemplo para o mundo. É um esforço muito importante”, destacou Pochmann.

Desafios para as operações

Na parte da manhã, gestores municipais, pesquisadores de universidades, e participantes de instituições e movimentos sociais que trabalham com a temática puderam compartilhar suas vivências sobre a realização de pesquisas com esse grupo populacional.

Foram discutidos os desafios metodológicos envolvidos, desde a elaboração do conceito que será utilizado para definir aqueles que podem ser considerados em situação de rua; a definição dos locais a serem pesquisados; até o treinamento das equipes que irão a campo.

Em uma das mesas, foi apresentada a experiência com a realização do Censo de População em Situação Rua na cidade de Belo Horizonte. Participaram do debate, o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Frederico Duarte Garcia, a representante da Secretaria Municipal de Assistência Social e de Direitos Humanos da Prefeitura de Belo Horizonte, Lívia Ferreira Araújo Rosa, a representante da Pastoral de Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte, Claudenice Rodrigues Lopes, e o membro do Movimento Nacional da População de Rua de Minas Gerais, Rafael Roberto Fonseca da Silva.

Experiência em Belo Horizonte

O professor Frederico Garcia, que já participou de três censos junto à população de rua, detalhou as principais etapas envolvidas na confecção das pesquisas, bem como os desafios inerentes a esse tipo de levantamento de dados. O último foi realizado em 2022.

“O Censo da População em Situação de Rua é uma experiência transformadora. É uma mudança de perspectiva que você vive em relação a coisas que te amedrontam e a vivências que são difíceis para você suportar. Você passa a vivê-las de forma espontânea. As equipes devem estar preparadas, pois são turnos diferentes de coleta de dados, e os desafios são diferentes em cada um desses turnos”, explica.

Garcia destacou que a ajuda da prefeitura é de extrema importância para o processo, bem como de pesquisadores pares, pois eles possuem a vivência da rua e sabem medir os riscos envolvidos. Além disso, o professor ressaltou os desafios para a definição do conceito sobre a população de rua antes do início da coleta; a necessidade de se ter uma comunicação eficiente sobre a pesquisa que será realizada para aumentar o engajamento; além do estabelecimento de um mapeamento prévio.

“Você tem que gastar dez vezes mais tempo pensando do que executando. O mapeamento é o instrumento que vai dar a segurança para a coordenação da pesquisa e para o coordenador da pesquisa que eles estão indo no local necessário. O mapeamento não busca setor censitário. Ele é bem mais complexo. Envolve conhecer a dinâmica das pessoas que estão em cada ponto”, explica.

A representante da secretaria municipal de assistência social e de direitos humanos da Prefeitura de Belo Horizonte, Lívia Araújo, ressaltou a importância da coleta de dados sobre a população de rua para que o município possa elaborar políticas públicas que atendam a esse grupo, entendendo melhor suas demandas.

“Conhecer o público era o essencial e foi o que conseguimos com base nos questionários que foram aplicados. Esses números têm fundamentado as decisões do órgão gestor. Quando falamos em população em situação de rua, falamos de uma questão transversal a todas as políticas públicas. A responsabilidade recai sobre a assistência social, mas ela precisa ser o fio condutor com as demais políticas públicas. E o próprio Censo demonstrou isso”, disse

A representante da Pastoral de Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte, Claudenice Rodrigues Lopes, acrescentou que esse tipo de operação censitária não ocorre apenas com a participação dos órgãos públicos, mas de entidades que já possuem um trabalho dedicado à população de rua.

“O povo da rua mais do que ser contado, precisa ser visto. Acompanhamos há muitos anos esse processo de luta. O Censo Nacional vai mostrar dados e pistas de ações fundamentais para os municípios, para os estados, e para o país. É a possibilidade de sair um pouco da lógica que essa população de rua vive, que é a lógica higienista”, disse.

Nessa perspectiva, o membro do Movimento Nacional de População de Rua de Minas Gerais, Rafael Silva, lembrou da necessidade de uma perspectiva integrada para tratar da realidade dessa população.
“Para entender esse processo, precisamos de acolhida e escuta. O Censo Nacional vai trazer uma resposta para isso. Precisamos ter o cuidado para dialogar com municípios e estados, e envolver pessoas com trajetórias de rua para poder compreender e facilitar esse processo como um todo. Assim, poderemos ter um resultado ganha-ganha".

Levantamentos no Nordeste

Logo após, uma segunda mesa tratou das experiências já realizadas nas cidades de Salvador, Recife e Fortaleza.
Participaram do debate os professores da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Otávio Augusto Alves dos Santos, Humberto da Silva Miranda, e Raquel Fernandes. Além deles, estiveram presentes o professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lucas Vezedek, a secretária municipal dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social da Prefeitura de Fortaleza, Iracema de Oliveira Machado, e o membro do Movimento Nacional de População em Situação de Rua da Bahia, Renildo da Silva Santos.

O professor da UFBA ressaltou a necessidade de se estudar bem o campo a ser pesquisado antes do início da coleta. “Convocamos todas as pessoas da cidade que falavam ou trabalhavam direta ou indiretamente com população em situação de rua. Fizemos grupos de discussão para começar a definir qual era o conceito a ser utilizado”, frisou.

Fortaleza já realizou três pesquisas com a população em situação de rua. No encontro, a secretária do município ressaltou os aprendizados adquiridos pelo órgão gestor após os levantamentos. O último ocorreu em 2021.
“Fomos construindo o questionário e as nossas ações. Para abranger um número maior de pessoas em situação de rua, decidimos que as pessoas que estavam em situação de superação de rua seriam nossos parceiros no recenseamento. Isso facilitava a nossa entrada nos espaços. Não fomos para as comunidades e ocupações, mas ficamos na rua, espalhando as nossas pesquisas ao mesmo tempo, durante quatro dias. É uma grande dificuldade não duplicar as pessoas no momento da contagem, pois algumas delas circulam no território”, disse a secretária.

O último Censo possibilitou à Prefeitura enxergar pontos que precisavam ser aperfeiçoados na coleta dos dados.
"Avaliamos que não incluímos outras perspectivas e que aquele Censo já nascia com uma certa defasagem, pois não tínhamos pensado em um processo amplo de quem eram aquelas pessoas. Não contamos crianças, adolescentes. Poderíamos ter avançado em outros âmbitos e sentimos, logo depois, que era necessário refazer esse trabalho. Estávamos nos preparando para isso até que veio a notícia de que o IBGE poderia auxiliar nesse trabalho”, disse, referindo-se ao Censo Nacional de População de Rua.

No caso da capital pernambucana, a última pesquisa junto à população em situação de rua ocorreu em outubro de 2022. Durante o debate, o professor da UFRPE, Otávio Augusto Alves, detalhou as etapas envolvidas, ressaltando que a presença das equipes nos territórios levou em conta as especificidades de cada região, as dinâmicas da cidade, dos grupos de apoio à pesquisa, e das comunidades pesquisadas.

Segundo dia contou com a troca de experiências de censos municipais. - Fotos: Hiago Martins
Segundo dia contou com a troca de experiências de censos municipais. - Fotos: Hiago Martins
Segundo dia contou com a troca de experiências de censos municipais. - Fotos: Hiago Martins
Segundo dia contou com a troca de experiências de censos municipais. - Fotos: Hiago Martins
Segundo dia contou com a troca de experiências de censos municipais. - Fotos: Hiago Martins
Segundo dia contou com a troca de experiências de censos municipais. - Fotos: Hiago Martins

“Recife já tinha uma tradição de fazer essa contagem de forma periódica. A universidade chegou para aprimorar, fazendo com que esse processo fosse mais participativo. Encontramos o caminho um pouco pavimentado”, disse.
Também da UFRPE, o professor Humberto da Silva Miranda ressaltou a necessidade de não se negligenciar as crianças e adolescentes que fazem parte da população em situação de rua.

“Esse Censo nacional não pode reproduzir uma perspectiva ‘adultocêntrica’, no sentido em que há várias metodologias e avanços de técnicas de escuta de crianças e adolescentes. O Censo das pessoas em situação de rua não é apenas técnico e burocrático. Ele traz toda uma perspectiva política e ética que precisa ser levada em conta. Os meninos e meninas precisam ter voz nesse Censo. Eles trazem consigo outra visão da cidade”, ressaltou Miranda.